Kota Pegada Francesco Valente – Brasil (2013)

Francesco

Viagem a Olinda, Pernambuco

Cheguei no dia 20 de Dezembro ao Brasil, à cidade de São Salvador (estado de Bahia), e fui logo em direcção norte, numa viagem nocturna de ónibus para Pernambuco, atravessando os estados de Bahia, Sergipe, Alagoas, chegando finalmente no dia 21 a Olinda, uma das primeiras cidades a serem fundadas no Brasil, hoje em dia uma das mais bem preservadas cidades coloniais, declarada Património Histórico e Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 1982.

Mais uma vez, a cidade me acolheu de forma maravilhosa com o seu calor e a sua bela gente. O que me levou a enfrentar esta viagem foi a curiosidade e o desejo de estudar com uma abordagem etnomusicológica um estilo de música que despertou a minha atenção nos últimos dez anos, anos em que tive a oportunidade de poder frequentar este lugar e seguir de perto este estilo musical tradicional e típico do Nordeste do Brasil: o Frevo, um dos géneros performativos centrais no Carnaval de Recife e Olinda, declarado Património Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2012, constituindo a orquestra Spokfrevo, liderada pelo mestre Spok (Inaldo Cavalcante de Albuquerque), o estudo de caso.

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Nestes três meses tenho tido a possibilidade de acompanhar toda a preparação desta grande aventura que é o Carnaval pernambucano (incluindo o também muito interessante pré-Carnaval). Foi a minha primeira experiência de trabalho etnográfico de campo, no contexto da pesquisa etnomusicológica, e logo no princípio tive de me organizar e tentar seguir de certa forma o conselho de A.Seeger, com o seu lema “faça você mesmo”. Em primeiro  lugar, procurei e frequentei lugares onde decorriam ensaios de orquestras residentes no território, nomeadamente:

-Orquestra Armação Musical do maestro Claudio Rodrigues

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-Orquestra da Pitombeira dirigida pelo maestro Lessa

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-Orquestra da Escola Henrique Dias dirigida pelos maestros Oseas e Duda

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Assisti a vários ensaios no clube Vassourinhas que se situa no Amparo, na Pitombeira dos Quatro Cantos, e na Escola de Musica Henrique Dias, todos lugares históricos, ligados às tradições culturais e musicais de Olinda. Escrevi algumas notas de campo, gravei vídeos e tirei muitas fotografias de ensaios que normalmente envolviam grandes orquestras de 40/50 elementos e grandes grupos de dança, com a presença dos passistas (os dançarinos), vestidos com fantasias e munidos das típicas sombrinhas. Foi interessante neste sentido poder apreciar ao vivo como este estilo musical está intimamente ligado à dança: a coreografia se adapta ao arranjo musical e vice-versa. Neste sentido, comecei a frequentar também a escola do Grupo de Dança Capoeira Frevo e Passo, de Carlos Loy e Tonho das Olindas, ambos alunos do lendário dançarino Nascimento do Passo, para entender melhor esta relação, e as origens deste tipo de dança que vem da capoeira.

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Durante o pré-Carnaval em Dezembro e em Janeiro, todos os domingos muitas destas orquestras saíam à rua num desfile em forma de bloco, numa espécie de ensaio geral

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para o Carnaval, o que representou mais uma ocasião para gravar imagens e vídeos das mesmas orquestras (e de outras que vinham do Recife), assim como outros blocos de frevo de pau e corda, serestas, blocos de maracatu. Assisti ainda a noites de Coco, Ciranda, Forró, Cavalo Marinho, Brega, música de Pífanos e música de Repentistas, típica do Nordeste brasileiro (ligada à literatura de cordel), em vários lugares de Olinda.

De facto me deparei mais uma vez com a imensa riqueza de expressões musicais aqui nesta zona do Brasil, algumas de origem africana, e outras caboclas, como o próprio coco que é um ritmo de origem africana e indígena, e que recebe várias nomenclaturas como coco-de-roda, coco-de-sertão, coco-de-embolada etc., e outros géneros de influência europeia e mista, como o caso do próprio frevo.

Ao frequentar os ensaios das orquestras de frevo em Olinda, comecei aos poucos a entrar em contacto com alguns músicos, e finalmente através da ajuda do saxofonista Wadinelson (o meu “anfitrião”), consegui entrar em contacto com alguns maestros de orquestra, arranjadores e músicos de vários naipes. Na primeira metade de Janeiro comecei assim a organizar a agenda das entrevistas. O espectro que quis abranger foi quase total: músicos das fanfarras, maestros, compositores, arranjadores, produtores, passistas (dançarinos). Isto foi devido ao facto de no início me ter parecido quase impossível chegar a conhecer o famoso Maestro Spok, personalidade que representa o estudo de caso do meu projecto de dissertação, que ao que me resultava estava sempre de viagem ou de qualquer maneira muito ocupado. Quis assim conhecer pelo menos o ambiente do frevo mais popular para tentar entender através das entrevistas o estado actual do género musical, e tentar analisar e explicar a posteriori o processo que levou a esta renovação do frevo no princípio do século XX através da perspectiva dos músicos que teria conseguido entrevistar, além de tentar explicar qual o contexto antropológico em que o género se pratica: quais os bairros, os clubes, as escolas e grémios em que os grupos e as orquestras se formam, ensaiam, tocam, competem entre si, e desenvolvem a sua própria carreira. A música é o reflexo dos comportamentos humanos (A.Merriam, J.Blacking), e a análise antropológica do género musical pretende explicar a importância social do fenómeno para a comunidade, como neste caso particular de Pernambuco, a importância do frevo na celebração do Carnaval de Recife e Olinda.

Através destas primeiras entrevistas, de facto tentei entender qual era o impacto real que as inovações trazidas pela orquestra de Spok teriam tido no ambiente do frevo, e qual a situação actual de um estilo de música que acabava de ser declarado Património Imaterial da Humanidade. Obviamente tive sempre a esperança de poder encontrar um dia o maestro Spok para poder entrevistá-lo e perceber alguns aspectos da sua música de perto.

Na primeira parte do meu trabalho de campo, tive como a sensação de que as possibilidades de poder fazer uma dissertação sobre o frevo, em particular sobre Spok, se iam restringindo, ao mesmo tempo em que iam surgindo novas perspectivas e novas ideias para abordar de maneira diferente o estudo do género musical em questão.

Se apresentaram novas problemáticas que suscitaram em mim algum interesse, neste sentido pude averiguar na primeira pessoa como às vezes pode ser difícil a condução de um trabalho de campo, que nos pode levar todavia para novas direcções, e enriquecer de qualquer maneira o nosso conhecimento sobre um determinado fenómeno que escolhemos a priori como objecto de estudo. Devo admitir que não foi tarefa fácil, e que levou algum tempo a conseguir ter uma certa aceitação nos ensaios, na qual me apresentava sempre munido de câmara de vídeo e de câmara fotográfica, mas em pouco tempo os maestros e os músicos sabiam quem eu era, e me deixaram operar sem problemas.

O círculo dos músicos que entretanto ia conhecendo se alargava, à medida que passavam as semanas, até que por fim cheguei a entrevistar entre outras, personalidades de primeiro plano como o Maestro Edson Rodrigues,

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o compositor e trompetista José de Bartolomeu,

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e por fim o Maestro Spok, este último de uma maneira surpreendente visto que tive a oportunidade de entrevistá-lo mesmo na última noite da minha estadia em Pernambuco.

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De certa forma, parecia estar tudo calculado, porque nesta última entrevista resolvi alguns dilemas e encontrei a resposta a algumas perguntas que se tinham acumulado ao longo do trabalho de campo, e o Spok, graças à sua grande disponibilidade e simpatia, respondeu a muitas destas questões sobre os efeitos e implicações do seu trabalho inovador, sobre como este é aceite ou não na comunidade musical Pernambucana, Brasileira e Internacional, além de outras questões e aspectos inerentes à sua carreira e ao passado, presente e futuro do frevo, assuntos que debatemos ao longo do nosso encontro. Com outros entrevistados tive também a oportunidade de conhecer a realidade actual do género com outras perspectivas, e tive a possibilidade de reviver através dos contos de alguns deles -às vezes pessoas de idade superior aos 70 anos – a história do frevo, as diferenças entre o passado e o presente, e conhecer assim personagens míticas da música pernambucana e do Nordeste no geral (Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, Sivuca, Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro etc.), durante entrevistas que muitas das vezes se transformaram em autênticos debates à qual se iam juntando outros músicos à mesa do nosso encontro. Assim aconteceu com o Maestro Edson Rodrigues e com o compositor e trompetista José de Bartolomeu, que visitei respectivamente na Casa do Carnaval, localizada no Pátio de São Pedro, no centro de Recife, e no escritório da Sonocom Gravações e Edições Musicais Ltda, também no centro da cidade.

Naturalmente graças ao depoimento de todas as pessoas que entrevistei, pude também avaliar o efectivo impacto da música de Spok no ambiente do frevo, sob diferentes pontos de vista, o que fez surgir de qualquer maneira um lado polémico no tema que escolhi, nas diferentes avaliações que a música de Spok suscita, entre tradicionalistas e músicos da nova geração.

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Durante este percurso tive também a oportunidade de fazer parte do Núcleo de Investigação sobre o Carnaval, do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco, coordenado pelo prof. Carlos Sandroni (que é também o meu co-orientador de tese). Esta foi uma óptima experiência, porque entrei em contacto com músicos e investigadores locais interessados no frevo, assim como em outras expressões culturais ligadas à musica do Carnaval, e assim em várias temáticas relacionadas com a indústria do Carnaval, com a indústria fonográfica, com a divulgação da música local nos mass media, com a vida e a carreira dos músicos e das condições nas quais eles operam, com a importância que estas expressões musicais adquirem para a própria comunidade local  e nacional. Os encontros que tivemos a cada terça feira no Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco, se revelaram para mim ocasião de encontro, intercâmbio e análise sobre o fenómeno musical, visto e abordado por diferentes perspectivas: cada um de nós iria seguir e investigar um aspecto particular do Carnaval, conforme os próprios interesses, seguindo uma metodologia de trabalho de campo (previamente discutida e argumentada), e com o objectivo de juntar depois do Carnaval as várias experiências, traduzidas em notas de campo, que teriam depois alimentado as nossas discussões nos encontros futuros. O Núcleo de Investigação sobre o Carnaval, de facto irá operar até ao Carnaval de 2014, atravessando e estudando ao longo de 2013 outras festividades, como as festas juninas, o aniversário da República etc. Cada investigador desenvolve a sua própria pesquisa sobre um aspecto ou uma expressão musical particular no contexto do Carnaval e de outras festividades de Pernambuco: o terreno de estudo será urbano (Recife, Olinda, Caruaru), e rural (o interior da zona do Agreste e do Sertão). De uma forma geral, as propostas de investigação vão em direcção ao frevo de rua, frevo de bloco, frevo de palco, maracatu, forró, Carnaval de palco e Carnaval de rua, investigação sobre instrumentos de percussão, condições económicas e aspectos relativos às condições de trabalho dos músicos, ou a investigação e o estúdo sobre bandas em particular como Spokfrevo no meu caso, Siba e a Fulôresta e Orquestra de Pau e Corda, em outros casos.

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No princípio de Fevereiro começou o Carnaval, que eu pessoalmente passei prevalentemente em Olinda, com a excepção de alguma excursão nocturna ao Carnaval de Recife. Como sempre, esta grande festa popular no Brasil assume as dimensões de algo de gigantesco, sai para a rua o mundo inteiro, e no meio de tanta gente conduzir um mínimo de trabalho de campo, ou tomar notas, torna-se tarefa complicada, além do facto de ser mesmo preciso ter uma boa resistência e boa saúde para aguentar o calor das tardes do verão pernambucano, e aguentar a pressão humana dentro e ao lado dos blocos que continuam a desfilar na rua e nas ladeiras sem pausa. Neste aspecto é incrível observar a heróica resistência dos músicos das fanfarras de frevo de rua, dos blocos de maracatu, e das baterias de samba, aguentando um calor por vezes inclemente e a contínua pressão dos “foliões”, dentro de ruas e ladeiras muito apertadas, as vezes em subidas íngremes na direcção da Sé, tendo que soprar todavia nos sousafones, trombones, trompetes e saxofones e tocar nos instrumentos de percussão, quase sem parar ao longo do dia inteiro. Observando esta grande aventura das fanfarras no meio da multidão, enquanto músico, tive muitas vezes a sensação e a vontade de partilhar com eles estes momentos, mas também surgiram em mim umas perguntas sobre o que é, ou o que significa ser músico no contexto do Carnaval do Brasil, ou em particular neste caso do Carnaval de Pernambuco:

Quanto amor à camisola é preciso para suportar tanto calor e tanta fadiga? De que maneira os músicos definem a sua filiação com à comunidade através da participação activa no Carnaval? O que significa emotivamente este tipo de participação? O Carnaval representa para alguns/muitos uma real oportunidade de ganhar um cachet (apesar de ser este às vezes simbólico)? Existem diferentes retribuições para músicos profissionais e amadores? etc.

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Tentei no meio da multidão seguir alguns blocos, com orquestras de frevo de diferentes dimensões, algumas das quais reconhecidas como entre as melhores, onde participei como folião: o bloco da Ceroula, o bloco das Virgens, o bloco da Sala da Justiça, o bloco Manguebeat, o bloco da Ema, o bloco da Pitombeira, o bloco do Lord de Olinda, o bloco da Mulher na Vara, a noite dos Tambores Silenciosos de Olinda etc. Durante os dias do Carnaval fui frequentemente ver o que se passava no palco do Fortim do Queijo, onde assisti às performances de Alceu Valença, Eddie, Orquestra de Pau e Corda, Siba e a Fulôresta, Maestro Duda, Spokfrevo, e no Recife, além de algumas bandas no Festival RecBeat (palco que apresentava uma programação um pouco alternativa ao Carnaval), o Caetano Veloso na praça do Marco Zero, no Recife antigo.

Foi desta forma muito interessante poder observar as diferentes dinâmicas do Carnaval de rua, das orquestras que tocam no chão com os passistas ao lado, as fanfarras, os grupos de percussão de maracatu, os grupos de batucada de samba, as bandas de pifanos etc., e o Carnaval de palco que ia acontecendo na Orla de Olinda, exactamente no Fortim do Queijo e na praça do Marco Zero no Recife Antigo, na qual se exibiam as estrelas da música local e nacional. A diferença de Olinda, no Recife pude notar um Carnaval com mais performances de palco, sobretudo à noite, onde os concertos e os palcos eram sempre as atracções principais, apesar de existir uma grande tradição na cidade de desfiles de blocos com fanfarras de frevo de rua, frevo de bloco e maracatus, entre os quais o famoso “Galo da Madrugada” que cada ano reúne entre foliões, músicos, trios eléctricos e dançarinos por volta de um milhão de pessoas. Trata-se de facto do bloco de Carnaval maior do Brasil e do mundo. Esta variedade de atracções entre as performances de palco e de rua, tornou-se motivo de discussão no nosso núcleo de investigação, por causa de tudo o que isto comporta e implica a nível de política cultural, acontecimentos carnavalescos, apoios, incentivos, etc. Na quarta-feira de cinzas, último dia do Carnaval, assisti ao desfile dos boizinhos, expressão desta tradição nordestina que se chama de Bumba Meu Boi, que saíram de vários lugares de Olinda para passarem e descerem a Rua da Boa Hora, em Olinda antiga, e reverenciar a Dona Dá, uma figura que achei muito interessante no Carnaval de Olinda, e receberem enfim umas oferendas simbólicas, caso que irei descrever mais à frente.

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Depois do Carnaval, tentei organizar o material vídeo e de imagens que tinha colectado ao longo dos vários dias, e organizar a agenda para conseguir mais entrevistas. Esta foi de certeza a fase mais difícil da minha actividade de trabalho de campo. Foi uma altura em que senti que podia ter feito mais, mas por vários motivos, e por falta às vezes de disponibilidade de tempo dos meus entrevistados, não consegui ser mais concreto. De facto, depois do Carnaval parece que a vida pára por uma semana ou duas, naquela fase dita de “ressaca do Carnaval”, predomina de facto um estado de espírito geral que tem a ver também um pouco com a melancolia, o que fez com que também a minha própria iniciativa estancasse um pouco. Deixei passar assim duas semanas antes de voltar a frequentar o Núcleo de Investigação na Universidade Federal, e tentar voltar ao activo, retomando o contacto com algumas das pessoas que ainda não tinha entrevistado, com músicos que tinha conhecido em encontros fugazes nos dias do Carnaval, e enfim tentar através dos meus novos conhecidos entrar em contacto finalmente com o maestro Spok, para conduzir e concluir o trabalho antes do fim da minha estadia pernambucana. Finalmente a partir do final do mês de fevereiro retomei as minhas entrevistas, e penso de ter conseguido material suficiente para poder levar avante o meu projecto de pesquisa, começar a reflectir sobre a experiência humana e científica, e analisar o material recolhido. Além de entender e definir as várias categorias de frevo (frevo de rua, frevo de bloco, frevo canção, frevo de palco, este último se dividindo em coqueiro, ventania e abafo), penso ter hoje material e experiência suficiente para poder começar a redigir o meu trabalho final. Duma forma geral, ao longo do trabalho de campo achei que os meus propósitos e as perguntas que tinha colocado no princípio estavam longe de ter uma resposta, e até comecei a achar que deveria mudar de rumo na minha pesquisa, mas sobretudo nos últimos dias antes de viajar para Portugal, e graças ao encontro com Spok, consegui material muito interessante, que julgo me possa permitir formular um discurso completo sobre o tema que escolhi, e enfim poder chegar a algumas respostas às perguntas iniciais:

– Qual a diferença entre o frevo de rua e o frevo de palco?

– Como podemos definir a diferença entre frevo tradicional e frevo moderno?

– Podemos então estabelecer que nasceu de facto um novo frevo, ou um frevo moderno?

– Qual o percurso de formação e afirmação do Spok no ambiente do frevo?

– Qual a inovação que Spokfrevo traz para este género musical, em termos de arranjos, orquestração e técnica interpretativa?

– Como o frevo moderno por ele proposto é recebido no ambiente local, e pelo público em geral?

– Qual o percurso que levou o Spok a uma afirmação nacional e internacional?

– Qual a relação da música de Spok com a dança?

– Qual a relação do Spok com a tradição, e com o frevo de rua?

No conjunto de todas as outras entrevistas que realizei com músicos, maestros, arranjadores, compositores, dançarinos, presidentes de blocos, personalidades de casas discográficas, ouvintes, consegui perceber outros aspectos relacionados ao mais tradicional frevo de rua, o que é “tocado no chão”, e outros aspectos relacionados a todo este submundo feito de ensaios abertos de orquestras residentes, clubes, escolas, agremiações, blocos, foliões, passistas, rádios etc., tendo encontrado algumas respostas à outras questões relevantes, como:

– O que acontece quando os músicos de frevo tocam na calçada debaixo de um calor extremo e no meio da massa dançante?

– Como o público reage ao som do frevo de rua?

– De que classe social são os músicos das fanfarras?

– Qual é o grau de preparação destes músicos que tocam nas fanfarras?

– Qual é a relação entre músicos, grupos e/ou orquestras de diferentes agremiações ou escolas?

– O que acontece quando estas orquestras se cruzam nas ladeiras no meio dos foliões, qual o tipo de comportamento?

– Qual a opinião dos próprios músicos em relação ao frevo que eles tocam na rua, ao tipo de repertório praticado, e ao tipo de situação?

– Qual o discurso dos passistas em relação à dança denominada de Passo, às suas origens, às diferenças entre frevo de rua e de palco, e a outros tipos de musicas e danças folclóricas de Pernambuco?

– Qual a opinião dos músicos e passistas sobre a questão da sazonalidade do frevo?

– Qual a opinião geral sobre a situação do frevo na actualidade, e sobre como a política cultural trata do assunto?

– Qual o nível de divulgação do frevo nos mass media, e nos concursos para novos compositores?

– Enfim qual é a emoção de se tocar/dançar na rua ou num palco, uma expressão musical que é da própria cultura?

Através da leitura de literatura adequada e da análise do material recolhido, através da reflexão e da ajuda da memória, na qual guardo todos os momentos que vivi neste lugar, espero poder dar uma interpretação pessoal do fenómeno musical que representa o objecto do meu estudo. Obviamente trata-se de material extenso que vai além do projecto da minha dissertação, que se concentrara no trabalho da orquestra Spokfrevo. Todavia entendo utilizar este material e enriquecê-lo para investigações futuras.

Antes de acabar este relatório gostava ainda de deixar uma sugestão sobre eventuais novas pesquisas: de facto numa das últimas entrevistas, numa conversa com o Maestro Edson Rodrigues, surgiu esta ideia sobre a influência do fado sobre o frevo de bloco, ideia que sinceramente me entusiasmou, pelo menos pela sua evidência.

Em 2012, o Frevo foi declarado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, no mesmo ano a mesma Instituição Internacional declara o Fado como Património Imaterial da Humanidade. Os dois estilos musicais reflectem a cultura expressiva de dois povos, o pernambucano e o português. Segundo alguns músicos, críticos, musicólogos e históricos, os dois estilos são de facto interligados:

– Qual foi o percurso do fado em terras brasileiras?

– Terá ele nascido no Brasil do Lundu?

– Como o fado pode ter influenciado o frevo-de-bloco?

O Mário Souto Maior, folclorista pernambucano, afirma no seu “Dicionário de Folclore para Estudantes”: “o fado é uma canção portuguesa, mas de origem brasileira. Quando a corte portuguesa se estabeleceu no Brasil, em 1808, os nobres gostaram muito do lundu brasileiro. De volta a Portugal, os nobres e músicos lusitanos deram ao lundu, com algumas modificações, o nome de fado, como é conhecido hoje”. A mesma tese é defendida por Câmara Cascudo, e Mário de Andrade, que também afirma que o lundu de origem africana deu origem ao fado que por sua vez foi levado para Portugal por marinheiros, sendo introduzido pouco a pouco nos bairros típicos da cidade de Lisboa.

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A origem do fado é de facto pouco conhecida, mas na própria Enciclopédia Luso- Brasileira, se reconhece a origem brasileira do ritmo nacional português, que possivelmente teria tido o lundu como matriz, surgido no Rio de Janeiro, e incorporado depois em Portugal outros elementos, até tomar a configuração actual, marcada pelo lirismo, pelo sentimento da saudade, pelo canto vocal e pela forte participação da guitarra portuguesa, adquirindo a seguir o tempero especificamente lusitano e mouro. Segundo a história, o Carnaval de Pernambuco começa também com Portugal: a primeira associação carnavalesca foi criada em 1887, fundada por um Português e se chamava Os Caiadores, e outros blocos lendários foram fundados pela comunidade portuguesa: o Canna Verde, e o Canna Roxa. O frevo-de-bloco nasce no contexto do Carnaval de Pernambuco, e tem como característica principal a de ser uma música em que o sentimento da Saudade tem uma forte expressão. De certeza a poesia do fado influenciou a poesia do frevo-de-bloco, e segundo muitos, estes “dois fados” diferem só no facto de em Portugal este tipo de músicase ter tornasdo intimista, enquanto no Brasil o fado saiu à rua sendo cantado em pleno céu aberto. Nasceu assim um repertório vastíssimo de “fados” acompanhados por uma orquestra de pau e corda, que seriam depois tocados nos desfiles do Carnaval no centro de Recife, o tal frevo-de-bloco, que assim foi chamado por Nelson Ferreira, pela primeira vez. Em conclusão, segundo estas teorias históricas e musicológicas o frevo-de-bloco (elemento forte da cultura pernambucana) veio do fado (elemento forte da cultura portuguesa), o qual enfim veio do lundu (por sua vez de origem africana). É esta, a meu ver, uma questão interessante que reflecte o tema do hibridismo cultural, muitas vezes tratado no campo da etnomusicologia, e das outras ciências sociais, e o tema do pós-colonialismo, Joe Bendel refere-se ao fado como um fenómeno denominado “reverse cultural colonialism”. Para concluir este meu relatório de trabalho de campo, irei transcrever duas notas de campo, que escrevi ao longo de dois momentos distintos do Carnaval. A primeira se refere ao caso já citado da noite dos Bumba meu Boi e da Dona Dá na quarta feira de cinzas, e o segundo se refere ao concerto de Spokfrevo na praça do Fortim do Queijo em Olinda na segunda-feira de Carnaval.

“Bumba meu Boi” na quarta feira de cinza

Na quarta-feira de cinzas se respira no ar esta atmosfera um pouco melancólica do inevitável, o Carnaval está se acabando. Os Bumba meu Boi saem de vários pontos da cidade de Olinda e traçando percursos diferentes concentram-se no topo da Rua da Boa Hora, para descerem a ladeira num desfile final que antecede a dispersão definitiva dos blocos e o fim das festividades.

O Bumba meu Boi é uma tradição do Nordeste brasileiro, que remonta provavelmente ao período da dominação holandesa no estado de Pernambuco, não tem uma origem muito clara, mas segundo alguns historiadores se refere a um acontecimento conhecido como o do Boi Voador. Actualmente, a performance tem personagens humanas e animais fantásticas, e o tema que é abordado com sátira, comédia, tragédia ou drama, é sobre a morte e a ressurreição de um boi.

Todos estes grupos ou blocos de Bumba meu Boi se reúnem no topo da Rua da Boa Hora e vão descendo a ladeira, passando a turno em frente da casa da Dona Dá, homenageando a senhora e recebendo dela umas oferendas: cada chefe de bloco recebe uma estatueta representando uma partitura do mítico tema de frevo composto em 1909 “Vassourinhas”, uma bandeja cheia de fruta e outra cheia de copinhos de cachaça.

À volta disso dá para notar uma atmosfera quase religiosa, se trata de facto de uma espécie de ritual, e ao mesmo tempo me parece ser um dos momentos mais folclóricos do Carnaval olindense. O ritmo distinto do Boi, vem acompanhado por uma melodia repetitiva tocada por sopros e percussão, as vezes percussão e vozes. O representante do bloco vem dançando à frente do boi, fazendo os seus cumprimentos em forma de genuflexão e abraçando a Dona Dá, que espera os blocos à porta da sua casa para entregar as oferendas. Estas oferendas serão distribuídas pelo resto dos figurinos do bloco, que começam a comer da fruta e a beber da cachaça oferecida em sinal de agradecimento. A seguir os blocos passam e saem pela rua abaixo arrastando consigo o boi, os músicos, os cantores, dançarinos e foliões, deixando o espaço para a passagem do bloco seguinte.

Aqui também no grupo dos músicos se misturam os que têm maiores capacidades técnicas e expressão de som, e outros menos preparados. Dá para observar uma geral e quase exclusiva participação da comunidade olindense na celebração, sendo um dia também menos frequentado pelo público de Recife. Seria interessante estudar e investigar sobre a vida desta senhora, a Dona Dá, que conseguiu puxar uma parte do Carnaval de Olinda e esta celebração à porta da sua casa, uma personagem viva e num certo sentido já mítica no contexto das celebrações carnavalescas da cidade. Segundo o que me foi contado, a Dona Dá convidou há uns anos os blocos dos Bumba meu Boi a passar pela sua casa em troca de oferendas, foi assim que se foi criando esta tradição, que transmite esta sensação do ritual e um significado quase religioso ao mesmo tempo. Interessante é também notar que se por um lado a tradição folclórica do Bumba meu Boi é a expressão de um ritmo prevalentemente indígena, que prevê um tipo de ritmo e o uso de determinados instrumentos como a maracá, a matraca, o tambor onça, o tamborinho e a zabumba (no caso dos Bois de orquestra, se utilizam também instrumentos de sopro como saxofones, trombones, clarinetes e pistões, banjos, bombos e tarolas), vejo passar também vários blocos de maracatu (daí, se calhar, a dimensão religiosa que referi acima), assim como bandas de pifanos, que vêm descendo a ladeira arrastando o boizinho, os figurinos dançantes e os foliões. Este contraste provocou algumas polémicas no ambiente da Casa do Carnaval nos dias a seguir ao Carnaval, entre tradicionalistas que defendem a “religiosa” conservação das verdadeiras tradições do folclore pernambucano, segundo a qual na noite dos Bois se deveria tocar só o ritmo adequado, e evitar misturas com outros estilos musicais.

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O concerto de Spokfrevo no Fortim do Queijo de Olinda na segunda feira do Carnaval

Este concerto me surpreende pela escassa presença de público e foliões, considerando o facto que Spokfrevo representa de qualquer maneira o ponta de lança do frevo moderno e actual. Totalmente diferente ao que aconteceu no concerto de Alceu Valença, onde só dois dias antes a mesma praça estava repleta de gente. Apesar de o Spok querer propôr um concerto mais dançante e menos “intelectual” ou “erudito”, o público não responde a dever, na minha opinião. O Spok propõe no princípio do concerto uns clássicos de frevo do Carnaval (incluindo o tema de sempre, “Vassourinhas”), e depois dedica grande parte do concerto numa homenagem inesperada ao mítico e falecido cantor Chico Science (fundador entre outros, do movimento Manguebeat), misturando frevo com funk e maracatu, de uma forma interessante e original. O próprio Spok assume um papel quase de rockstar, dançando e saltando no meio do palco. Há menos improvisação por parte dos músicos da orquestra, só de vez em quando o maestro chama os diferentes naipes para uma improvisação subitânea e colectiva no centro do palco (trombones ou saxofones), momentos de liberdade e de explosão de uma grande energia instantânea e criativa.

Me surpreende mais uma vez o virtuosismo técnico da orquestra e a perfeição nos pormenores da execução do repertório e num perfeito controlo das dinâmicas, num sentido positivo. Do ponto de vista da resposta do público, fico um pouco decepcionado, esperava mais participação e mais presença. Estou observando uma certa vontade de Spok em propôr algo mais comercial e mais acessível, mais Pop se quisermos, seja na escolha do repertório, seja na atitude em palco, sua e dos seus músicos. Será por ser um palco no meio do Carnaval de Olinda, e para tentar agradar a audiência de uma maneira diferente? Evidentemente o público durante o Carnaval quer ouvir ou está interessado noutros tipos de música, se calhar mais tradicional e mais dançante, e um repertório que inclua só os clássicos. Surgem destas considerações algumas perguntas:

Qual é a possibilidade real das orquestras operarem com uma certa liberdade, para mostrar repertórios variados e originais na altura do Carnaval (altura em que o género é tocado com mais frequência), quando o público na realidade quer ouvir e dançar ao som das melodias de sempre?

Existe a possibilidade de as novas composições de frevo terem adequada divulgação antes do Carnaval, para poderem ser tocadas e cantadas pelos foliões durante a festividade?

Existe, nas orquestras que propõem um frevo mais moderno, uma espécie de preocupação em não desatender todavia os gostos do público do Carnaval?

Propõem estas orquestras repertórios diferentes em situações diferentes como por exemplo uma sala de concerto, ou um palco de Carnaval?

Existem então diversas abordagens segundo a tipologia de público ou o tipo de situação e contexto na qual se desenvolve a performance?

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Aqui se conclui a primeira etapa da minha viagem de estudo musical etnográfico no Nordeste do Brasil, lugar de mil encantos, mil cores, e mil sonoridades.

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Francesco Valente ( 2013)

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