Kota Pegada Márcio Silva – Peru II (2013)

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Entramos pelo ar  num avião com pouco mais de vinte pessoas. A terra e o verde dos cabelos das árvores chamam por nós, dirigem-se a nós. Muito mais do que os taxistas oferecendo os seus serviços. Há até quem as oiça e, ao prestar-lhes atenção quase devota, ouvem como presente coisas de si próprios sobre um futuro que se avizinha.
 Andamos selva adentro, afastados cada vez mais da pequena base em terra batida. A dada altura tinha-se extinguido o concreto. Os olhos, esses pareciam ainda não se querer adaptar à incerteza das linhas que nunca pediriam ajuda a um qualquer fio-de-prumo. Bastava uma linha segura que alicerçasse os horizontes que acusam o costume: as caixas de pedra feitas habitáculos inertes, fechados sobre o mundo e fechados para o mundo. Mas não, essa linha era a tal presa numa agulha perdida no palheiro todo ele longe de ser recto:
 Primeiro são as montanhas, que rasgam as linhas do horizonte, que parecem espinhos nas costas profundas do céu, que encobrem o que lá vem e dificulta o lá chegar;
 Lavando os pés às montanhas chega-lhes a escorrida água espremida dos frutos dos céus que alguns chamam de nuvens. Os sumos destas frutas trazem dedos que espreguiçam a agrura do que nas mais inclinadas montanhas cresce. Esses dedos chuvosos unem-se nas mãos que sombreiam a terra nua pronta a ser vestida com um qualquer trapo que ela própria providencia ou lhe aprouve. As cores mais escolhidas pela terra para se cobrir sobre montanha são os mantos de branco algodão, são as sôfregas meias de um castanho café. Para confortar, um agasalho universal de verde-milho, e como se não bastassem todas as cores existentes, a montanha pode também vestir-se de ouro em pó, ou coca, pigmento extraído de folhas mascadas e que pintam a mãe natureza de um verde camaleónico, que dá aos homens a ilusão quase palpável que este verde é a cor que eles quiserem, todavia é a que mais (e tudo) distorce.
 No correrio (corre-rio) de todas as águas, esses dedos feitos mãos palmando terrenos de cultivo e braços de sal, estão no fim, abraçados. Os corpos inteiros de água que têm os trabalhos mais pesados como dar caminhos e redes de transporte e sustento a plantas, animais e pedras até, nascem da concentração destas gotas todas que separadas não molham uma formiga, mas todas juntas dão de beber a várias montanhas.
A certeza destas águas é não olharem para trás, e isso amolga, amassa, amolece tudo o que suporta a sua passagem. Revolve a cada minuto os limites desse caminho de água.
Basta o céu estar mais generoso, que o rio, por consequência, se emproa todo veloz.
Sem falar das carícias do vento, a montanha ondula, a vegetação atrás do Sol se curva, as águas ziguezagueiam.
Nada recto portanto.
 Como um governo que governa a desgovernadamente governar, que muitos designam de caos, a selva enfrenta a cada minuto essa utopia chamada rectidão.
A serventia à sistematização que o ser obtuso, contra tudo e todos impõe, nunca foi norma ou regra aqui. E sempre que tenta, achando que vai compor a harmonia do lugar, falha. O rio, o vento, as chuvas, as raízes mais profundas que todas as tentativas do homem, desfazem todo e qualquer intento de padronizar de forma sistemática a Selva.

As palavras selva e sistema só funcionam juntas se precisamente viverem num caos aparente.
 E o desgovernado assim se governa.
 E o que parece inclinado, turvo, ou contorcido, é o que, na verdade, é o mais harmonioso.

Chegamos à Amazónia.
As confissões aqui não são feitas às paredes, pois são elas quem se confessam quando há tempo para conversar.
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Viemos aqui procurar feiticeiros que de manhã apanham sol num corpo de rã empoleirado numa folha de bananeira. Que de tarde planam como um condor nas margens do rio Amazonas. Que de noite caçam e vêem com olhos de um puma.
Viemos esmagar raízes de sabedoria, simular a morte e trazê-la aos nossos olhos, às nossas vidas.
Viemos conhecer e falar com as serpentes.
Viemos aqui procurar guerreiras munidas de arcos e só com um seio.
Disseram-nos que tinham quase todos fugido quando lhes cortaram as casas e os seus sustentos para fazer fogo em cabanas de pedra, longe, onde chamam eles de cidade.
Depois de vermos o que vimos aqui, voltar será difícil.
Então habituar de novo os olhos ao que era antes de cá chegar será praticamente impossível.
Todos se deixam envolver no charme da mentira excluindo os olhos corajosos que viram pelo menos uma vez a verdade.

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